Kyudo é a palavra japonesa usada para se referir à prática de arco e flecha típicos desse país. Mais exatamente, a essa prática como é feita nos dias de hoje, já que até cerca do século XVII costumava-se chamar kyujutsu às técnicas de tiro com arco.
Uma tradução possível para kyudo é “caminho do arco” (assim como se costuma falar também em “caminho do guerreiro” para bushidō etc.). Esse tipo de tradução, que, a princípio, soa estranho para alguém que veja o arco e flecha como um esporte ou mesmo como uma arte marcial, nasce do fato de a tradição Zen-Budista, que tanto influenciou o kyūdō e outras tradições orientais, encarar esta arte não como um fim em si, mas como um caminho para algo maior, para a obtenção de harmonia pessoal e espiritual.
Isso não significa, de forma alguma, que a prática do kyudo (ou de outra arte marcial qualquer, diga-se de passagem) seja restrita aos budistas ou xintoístas. Hoje o kyudo é praticado em diversos países do mundo, por milhares de pessoas – homens, mulheres e crianças –, e certamente apenas um número reduzido delas pratica ou entende uma dessas religiões.
A marca do budismo e do xintoísmo é, contudo, inegável dentro do kyudo, como elementos importantes e intrínsecos que são dentro da própria cultura japonesa em geral. Elas se materializam na forma, na vestimenta e, claro, na ideologia por trás de tudo. Ainda assim, o kyudo, para aqueles que não têm particular interesse no budismo ou xintoísmo, não deixa de ser uma arte ou uma prática atraente, uma vez que alia o exercício físico à beleza estética de uma dança e à reflexão da prática filosófica ou meditativa.
Além disso, o kyudo é uma arte marcial altamente ligada à meditação e cujos objetivos máximos são Shin-Zen-Bi, isto é, a Verdade, o Bem e a Beleza.
Quando perguntado “o que é a Verdade?”, diz-se que um mestre arqueiro pegou seu arco e disparou uma flecha, sem proferir uma única palavra, permitindo que sua maestria com o arco servisse como medidor de seu progresso como “arqueiro que trilha o caminho do arco” e, assim, mostrando o conhecimento que um arqueiro obtém da realidade, ou seja, da Verdade.
Por essa prática diligente, o confucionismo ensina que o arqueiro irá se tornar moralmente bom (Zen) e que esta sinceridade de seu caráter irá estimular o senso estético de qualquer um o assistindo em um nível intuitivo, emocional – dando ao desempenho do arqueiro uma beleza que emana não só da sua habilidade técnica, mas também da maturidade emocional e da sinceridade espiritual do mesmo.





