Treino especial com Okabe sensei da AAK

Como parte dos preparativos para participar do IV Seminário Internacional e III Copa do Mundo de Kyudô,  em abril, a KKSP convidou Okabe sensei (renshi, 5 dan), presidente da Associação Argentina de Kyudô, para comandar um treino especial em Campinas e em São Paulo.

Os treinos ocorreram nos dias 24 (Campinas) e 25 (São Paulo) e marcaram também um momento de confraternização entre membros de diferentes grupos brasileiros, pois contou também com a participação de kyudocas da Bahia e do Rio de Janeiro que irão para Tóquio no mês que vem.

Nem seria preciso dizer que o treino foi extremamente proveitoso para todos e que somos muito gratos a Okabe sensei e à organização da KKSP. Também foi uma grande oportunidade para o grupo de Campinas, que ainda vêm lutando para se consolidar.

O’Brien Sensei: Kyoshi e Tradutor

As Artes Marciais japonesas com sua longa história possuem uma rica fortuna literária que reúne obras mais conhecidas, ou menos desconhecidas. Às vezes largamente traduzidas e pobres do ponto de vista editorial e crítico, são frequentes obras não completas e traduções via línguas latinas ou germânicas. Os títulos são muitos e vão desde obras antigas de contextos editoriais e autorais peculiares, como o Livro dos Cinco Anéis (五輪の書 Go Rin no Shô) e o controverso 葉隠聞書 Hagakure Kikigaki, até textos mais recentes como as contribuições do romancista e iaidoka Yukio Mishima (三島 由紀夫, 1925 – 1970).

Mesmo especificamente no Kyudô os textos são muitos, como 弓の心 Yumi no Kokoro de Inagaki Genshiro Sensei (稲垣源四郎先生, 1911 – 1995) e mesmo o 射法訓 Shaho Kun e o 礼記射儀  Raiki Shagi que abrem o Kyudo Manual são registros da proximidade histórica do 武道 Budo ao texto escrito. [1]

Entre tantos textos, é difícil a interpretação, seja pelo acesso a traduções ou pelo duvidoso exercício da contextualização.  O Kyudo Manual permanece como a publicação mais importante e básica para a aprendizagem e o treinamento de nossa disciplina. A importância de seu estabelecimento pela ANKF e a aparição da primeira edição em 1953 foram incontestáveis para assegurar a longevidade e a expansão do Kyudô. E para o público estrangeiro a tradução para o inglês supre um enorme vazio. Este texto pretende divulgar quem foi o seu tradutor.

O’Brien Sensei Kyoshi Hachidan [2]

Liam O’Brien Sensei (1946-2015) foi membro fundador da EKF (European Kyudo Federation) como presidente da UKKA (United Kingdom Kyudo Association) e foi shidosha da LKS (London Kyudo Society).

Iniciou seu treinamento de Kyudô no Japão na cidade de Kamakura, sob a tutelagem de Takeda Yutaka Hanshi em janeiro de 1972, então aos 26. Na primavera deste ano alcançou sua primeira graduação, e antes de voltar para Londres em 1974 já possuia yondan. Tornou-se godan em 1983, nove anos depois, com 37, em um seminário em Londres organizado pela EKF.

Em 1984 O’Brien Sensei retorna ao Japão, desta vez mora em Kobe e estuda Kyudô com Takeuchi Osamu Hanshi, no Ashiya Dojo, onde por nove anos treinará todas as tardes e finais de semana. Um de seus sempai nesse dojo é o hoje consagrado Hayashi Fumio Hanshi.

Ray Dolphin, hoje presidente da Associação de Kyudô do Reino Unido e outrora amigo e companheiro de O’Brien Sensei, a respeito dos seus anos em Kobe, lembra que ele frequentemente dizia:

“No Japão se aprende ficando embaraçado, cometendo erros e recebendo correções. (…) Quando Takeuchi sensei pediu a uma aluna para assisti-lo durante um Yawatashi, foi dado a uma mulher a chance de ser Daini Kaizoe, mas ela disse que não sabia e que não se sentia preparada. Ele nunca mais lhe pediu. (…) Quando um Sempai repreende um Kohai, nunca deve ser pessoal e sempre pelo benefício do aspirante.” [3]

Na experiência de um dojo genuíno, visitantes estrangeiros tendem a ser recebidos como convidados, e é muito comum que se tolere alguma ignorância à cultura japonesa. Não era o que acontecia com O’Brien Sensei, que em 1984 passa a Renshi, em 1986 para Rokudan e, em 1992, assim que retorna ao Reino Unido, passa a Kyoshi.

Com seu retorno do Japão, O’Brien abre a sua casa para praticantes de graduação alta se prepararem para os seminários seguintes, e inicia em Heston uma prática de domingo que culminará na Sociedade de Kyudô de Londres. Anzawa Sensei neste momento atribui o nome de Shatokurin ao dojo em que O’Brien treina na capital do Reino Unido, significando “lugar da virtude do disparo”.

“Sem a relação Sempai-Kohai não há treino de Kyudô”

Nestes anos, no pós-treino, O’Brien Sensei e sua esposa frequentemente convidavam os seu alunos mais envolvidos para uma refeição da tarde. Nestes encontros informais eles conversavam  sobre Kyudô e a sua experiência no Japão.  A mesma situação íntima e informal que O’Brien teve com Takeuchi Sensei, que gostava muito de café preto e passava horas depois do treino com seus alunos em uma cafeteria tomando café e fumando.

Para O’Brien Sensei, no Kyudô, a relação aluno e professor é primordial. Apesar de ensinar sem descriminação, ele demandava uma relação apropriada e séria com seus alunos. Pela memória de Ray Dolphin, O’Brien dizia:

“Sem a relação Sempai-Kohai não há treino de Kyudô. Um grupo de pessoas praticando juntas não constitui um dojo. (…) No começo de toda prática, deve-se sempre fazer o Aisatsu (saudação) apropriado, primeiro ao dojo, depois ao seu professor e então aos outros membros do dojo.” [4]

Para ele o Kyudô era um meio de cultivação moral, Shyuyodo, assim o que é importa é como você se aplica ao treino e não a sua efetividade no tiro. Pela lembrança de Dolphin, O’Brien Sensei obviamente ensinou a técnica, mas sobretudo ele ensinou o Reigi, respeito pelas pessoas que treinam juntas, respeito ao equipamento e à prática ela própria.

Há uma percepção de treino muito madura prevista no Kyudo Manual, sob o título Ethics of Kyudo (Moral code and Etiquette – Michi to Rei), no qual se discute os “dois aspectos do Kyudô”. O aspecto esportivo, técnico e competitivo e “as partes mais profundas da prática”, que envolvem os ideais Shin, Zen, Bi:

“Nada mais desagradável no Kyudô que o disparo baseado no apego ao ato de acertar. Em nossas vidas diárias, nós também experimentamos esse tipo de atitude, mas a realidade deste desejo é mais evidente no disparo, por isso em nossa prática a importância da verdadeira atitude sobre o desejo é encontrada e nossas vidas podem ser experienciadas mais profundamente. Neste contexto, expressões como “Atirar é vida” (Sha Soku Jinsei), “Atirar é Viver” (Sha Soku Seikatsu) ganham sentido.” [5]

O Legado De O’Brien Sensei

Em 1992 O’Brien concluiu a tradução do primeiro volume do Kyudo Kyohon para o inglês, e dizem que apenas aqueles que treinaram antes deste ano podem realmente apreciar o valor deste livro.

Dolphin lembra que para O’Brien não há nada pior do que ensinar o seu próprio entendimento do Kyudô, pois deve-se ensinar o que se foi recebido de alguém de nível Hanshi ou seguir o Manual. Nesse sentido, o legado de O’Brien assegura que o pior não aconteça, mas não foi apenas esse seu legado.

Em 1910, o Kew Jardim Botânico Real de Londres recebeu uma replica de um jardim japonês Chokushi-mon que por anos ficou sem manutenção. Mas em 2006 com a ajuda do Embaixador Japonês, reformas foram feitas e e O’Brein Sensei foi convidado para fazer um Yawatashi na ocasião de sua reinauguração onde bençãos xintoístas também foram dadas.

O’Brien também pôde se tornar amigo íntimo de um japonês artesão de yumi, Higosaburo Sensei que impressionado com a colaboração de Liam ao Kyudô, presenteou-o com um Mangi Yumi (o modelo mais especial feito por Higosaburo, que é colado com um adesivo natural chamado Nibe, e sempre feitos durante a noite, para que o artesão não seja perturbado e possa se concentrar inteiramente nestas obras-primas).

Yumis de bambu são sempre feitos aos pares e sabendo disso, logo depois de chegar ao seu hotel depois da visita em que fora presenteado, O’Brien decidiu voltar a Higosaburo para fazer uma oferta de compra ao yumi que faz par com aquele que ele havia acabado de ganhar. No caminho, encontrou Higosaburo com o yumi em questão em mãos, indo em direção ao hotel de O’Brien, para lhe dar este também, pois este sem seu par parecia solitário… Em 2003, Higosaburo visitou a Sociedade de Kyudô de Londres e pôde ensiná-los como cuidar de seus yumis.

Nos seminários da EKF O’Brien Sensei sempre atuou como tradutor e intérprete dos ensinamentos transmitidos pelos professores de nível Hanshi, o que requer profundo conhecimento em terminologia técnica.

Também a sua experiência com Kyudô old school no Dojo Ashiya sob a tutela de Takeuchi Sensei, foi ímpar, pois antes de passar para nanadan em 1997 foi convidado por Kamogawa Sensei para participar do seminário de Kyoshi da ANKF. Nesta ocasião tornou-se amigo de Ishii Sensei e Miyauchi Sensei que  hoje são Hanshi.

Neste período a Princesa Imperial Takamado visitou o seu dojo em Londres e foi acompanhada do presidente da ANKF Suzuki Sensei. Uma grande honra ao Kyudô estrangeiro.

A ANKF lhe concedeu postumamente o hachidan  e um certificado foi dado a sua filha em um seminário Shogo em outubro de 2015. Um evento comemorativo foi feito em Lilleshall e neste Tsuito Shakai mais de 70 pessoas de toda a Europa vieram para disparar um par de flechas em sua memória.

O’Brien Sensei protagoniza um documentário filmado pela NHK World sobre Kyudô; e há um vídeo em sua memória compartilhado na rede.

[1] MUSASHI, M. O Livro Dos Cinco Anéis – Gorin No Sho. São Paulo: Conrad. 2010. 148 p.
TSUNEMOTO, Y. Hagakure. São Paulo: Hunter Book. 2014. 80 p.
GENSHIRO, I. Yumi no Kokoro – The Spirit of Kyudo – Lo Spirito del Kyudo. Milano: Luni Editrice. 2014. Trilíngue. 128 p.

[2]As informações contídas neste texto foram todas encontradas em: ZIMMERMANN, G. European Kyudo Federation Newsletter. Publicação online, v. 1, n. 1, 2016. Disponível aqui.

[3] DOLPHIN, R. The Legacy of Liam O’Brien, Kyoshi Hachidan. In: ZIMMERMANN, G. (Org.) European Kyudo Federation Newsletter. Publicação online, v.1, n. 1, 2016. p. 2. Tradução nossa.

[4] DOLPHIN, R. IDEM p. 3. Tradução nossa.

[5] ANKF (Org.). The Two Aspects of Kyudo. In: Kyudo Manual, Tóquio: ANKF, 1995. p. 21. Tradução nossa.

Ficha de informação de viajantes para o I Seminário Sul Americano de Kyudo

Esse é um formulário simples para monitorarmos cada membro que compões a delegação brasileira, chegando e saindo da Argentina para o I Seminário Sul Americano de Kyudo (2017).

Por favor, quem estiver viajando, preencha a lista com o seu nome, aeroporto e datas de saída e chegada. Essas informações serão úteis aos demais praticantes brasileiros que poderão se organizar em translados coletivos além de fazer companhia no aeroporto. Essas informações só serão compartilhadas entre os membros da BKK que irão ao seminário.

Links para o formulário: https://goo.gl/forms/sAK7p59HMlCsrRdC3

 

 

Treino especial em Brasília-DF

No último fim de semana, dias 24 e 25 de junho, a KKDF convidou o presidente da Associação Argentina de Kyudô, Koji Okabe (5 dan), para um treino intensivo especial de dois dias.

Segundo os relatos, Continuar lendo Treino especial em Brasília-DF

I Workshop de Kyudô de Salvador

É com grande prazer que anunciamos mais um workshop – dessa vez em Salvador (BA).

O evento acontecerá nos dias 15 e 16 de julho, na UFBA, e a instrução ficará a cargo de Elisa Corrêa (4 dan).

Como sempre, Continuar lendo I Workshop de Kyudô de Salvador

Treino em Curitiba

TREINO EM CURITIBA

por René Guimarães

Conversar sobre o Kyudo é muito interessante, treina-lo ainda mais. Com este espírito o pessoal do Ponta Grossa Kyudo Kai se reuniu com alguns interessados na prática do Kyudo em Curitiba, na manhã de domingo com geada, 2º as oito horas, do dia 17 de julho, com o acompanhamento de Rene Guimarães.

O encontro se deu na Praça do Japão, local onde se reúnem os praticantes de Zazen, de TaiChi e os apreciadores das sakuras. Estiveram presentes a Tatiana, o Marcelo, O Elton e o Leandro, além do pessoal de Ponta Grossa, com mostram as fotos. Continuar lendo Treino em Curitiba

Registro na IKYF 2016

 

Logo IKYF - BrancoChegou o momento dos praticantes de Kyudô renovarem as suas carteirinhas:

Recebemos um comunicado da Federação Internacional de Kyudô (IKYF) sobre a atualização mundial da lista de praticantes federados – o registro individual de cada um na base de dados oficial, no Japão.Para participar de seminários de Kyudô da IKYF em 2016 e fazer as provas no exterior é preciso se registrar. Ano que vem, os seminários internacionais serão nos Japão (abril), Estados Unidos (julho) e Europa (julho).

 

Para os praticante brasileiros que já são federados e para quem ainda não tem uma ID e quiser, este é o momento de aproveitar para fazer isso.

Esse registro dura um ano e custa 1000 ienes + taxa de envio por pessoa. Os interessados que se registrarem nesta lista receberão instruções sobre a conversão e envio deste dinheiro pela Brasil Kyudo Kai (BKK).

Lembrando que:
– A data limite para responderem é 26 de dezembro de 2015.
– Quem tiver perdido a carteirinha ou quiser cancelar a inscrição envie um e-mail para: kyudo.kai.rj@gmail.com .

Para facilitar, e concentrar as informações, foi criado um formulário on-line que deverá ser preenchido pelo praticante de Kyudô. Assim teremos todas as informações necessárias dos interessados para a criação de uma planilha única do Brasil. Por favor, preencha os sues dados pelo link abaixo:

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