Fazer ou não fazer a prova, eis a questão!

Mais um dá série “kyohon”…  esse aqui, na verdade, não vem do Manual, mas é muito útil, como se verá! vale a pena a leitura! a tradução é minha. (^_^)v

.

A questão do teste

Dan DeProspero[1]
Qual o valor de um exame de kyudô? Os exames e sistema de graduação destroem a pureza do kyudô? Devo eu fazer o exame? E, se fizer, o que se espera de mim? Todas essas são questões que cada um nós precisa responder a certa altura de nossa vida como praticantes de kyudô. Não posso dizer se você deveria ou não fazer o exame; isso é algo a ser decidido entre você e seu instrutor. No entanto, posso lhe contar sobre minha própria experiência com o sistema de exames aqui no Japão e compartilhar alguns dos conselhos que meu professor, Onuma Hideharu (hanshi)[2], me deu. Dessa forma, quando chegar a hora de decidir se deve ou não fazer o teste, você tomará a decisão de maneira mais consciente.
A princípio, há duas visões acerca do exame. De um lado estão as pessoas que dizem que o exame e o sistema de graduação destituem o kyudô dos ideais de verdade, bondade e beleza. Do outro lado estão aqueles que acreditam que sem a pressão gerada por exames periódicos, o princípio do kyudô está incompleto.
De certa forma, ambos os lados estão corretos. Nada arruína tanto a beleza do kyudô quanto alguém que se preocupa demais com o grau ou, mais precisamente, com o poder que um grau elevado pode trazer. Essas pessoas comumente perdem de vista a verdade também. O ego delas as cega para tudo que não esse objetivo imediato; elas falham em ver que sua habilidade de tiro não é necessariamente igual a seu grau.
Por outro lado, pessoas que praticam dia após dia sem ter de encarar o desafio de um exame se arriscam a nunca vir a perceber completamente os segredos do kyudô. Por quê? Bem, o kyudô, como o Zen, é uma arte simples que revela pela prática sua verdadeira natureza através da imposição de uma enxurrada de obstáculos físicos e mentais. Para superar esses obstáculos nós precisamos procurar atentamente dentro de nós mesmos e fazer as mudanças necessárias para progredir para o nível seguinte de compreensão. Sempre fui ensinado a ver os exames como algo similar ao Zen koan, um quebra-cabeças simples que desafia os praticantes de Zen a olhar além de seu conhecimento quotidiano.
É óbvio que, teoricamente, é possível criar um conjunto de circunstâncias similares na sua prática diária, mas, como somos humanos, a maioria de nós está vulnerável a erros como o excesso de autoconfiança e complacência quando atirando no conforto de locais (ou em situações) familiares. Não importa o quanto se tente, não há como recriar na prática normal as pressões e os desafios que confrontamos quando estamos sendo examinados num dojo estranho, cercado por rostos desconhecidos. Pessoalmente, vejo os exames como uma excelente forma de amplificar e acentuar os problemas que encaro na minha prática quotidiana e, sendo assim, aumentando enormemente minhas chances de descobrir e entender meu “eu oculto”. Como Onuma-sensei gostava de dizer, “Nós aprendemos um pouco sobre nós mesmos quando nós passamos em um teste, mas nós aprendemos muito mais quando nós falhamos”. E como sei que minhas falhas vão ser em número muito superior aos meus sucessos à medida que avanço em grau, as palavras do sensei são um grande encorajamento para eu fazer os exames.
Eu acredito que o maior problema que as pessoas têm com os exames é que elas não têm certeza quanto ao que estão sendo testadas. A lista abaixo de critérios não oficiais para os exames é baseada nas conversas que tive com Onuma-sensei, assim como nas minhas próprias experiências com os exames. A lista é incompleta. Eu a exponho aqui apenas como um guia para aqueles que estão começando no caminho dos exames. Existem muitas outras questões em potencial, todas as quais são retiradas do Kyudo Kyohon, volume 1. Os termos japoneses que são de fácil tradução foram traduzidos. Os termos comuns e os que se traduziriam por expressões longas foram deixados em japonês. Para saber mais sobre esses termos e para ver a lista dos critérios oficiais procure o Kyudo Kyohon (há uma versão em inglês, publicada em 1993).
Grau Prova escrita
(perguntas possíveis)
Prova prática
Sankyu, nikyu, ikkyu Enumere os passos do hassetsu.

Explique ashibumi.
Por que você começou a fazer kyudô?
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. O estudante deve ser capaz de fazer os movimentos básicos e mostrar que consegue lidar com o arco e as flechas. Nos kyus mais altos, ele deve fazer tudo isso com o mínimo de erros. Acertar o alvo não é um requisito.
Shodan Enumere os passos do hassetsu.

Explique ashibumi com detalhes.
O que é kyudô para você?
Discorra sobre kyudô e etiqueta.
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber uma compreensão básica do hassetsu e do tiro. Acertar não é necessário, mas o vôo das flechas ser controlado.
Nidan Enumere os passos do hassetsu.

Explique dozukuri ou uchi-okoshi com detalhes.
Explique a relação entre kyudô e a vida quotidiana.
Diga por que você estuda kyudô.
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber uma compreensão boa do hassetsu e do tiro. Certo grau de “energia espiritual” deveria transparecer. É desejável que uma das flechas acerte o alvo.
Sandan Explique dozukuri ou yugamaeem detalhes.

Explique o fundamental no princípio do tiro e sua técnica (shaho/shagi no kihon).
Discorra sobre as posturas básicas (shisei no kihon).
Explique as tateyoko jumonji ou as goju jumonji.
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber uma compreensão completa do hassetsu e do tiro. A respiração deve ser regular e relaxada. O estudante deve ter um bom yugaeri. É desejável que uma das flechas (de preferência a primeira) acerte o alvo.
Yondan Explique heijoshin(a mente quotidiana).

Explique sanmi-ittai.
Explique tsumeai/nobiai.
Explique goshin.
Explique os movimentos básicos (kihon dosa).
Explique hikiwake ou kai em detalhes.
Discorra sobre a ética do kyudô.
Dê os nomes das partes do arco ou da flecha.
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber um bom te-no-uchi e um hikiwake com boa liberação da flecha. A respiração deve estar correta. Ambas as flechas deveriam acertar.
Godan Explique te-no-uchi.

Explique kai em detalhes.
Explique tatesen/yokosen.
Explique shin, gyo, so.
Explique o relacionamento entre shisei e dosa.
Explique hanare ou zanshin detalhadamente.
Discorra sobre kyudô e a prontidão da mente.
Explique como ensinar kyudô a um iniciante.
Discorra sobre shitsu.
Discorra sobre mezukai (a posição dos olhos).
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber um bom hanare e zanshin, e uma muito boa percepção da relação entre respiração e espírito. O tiro deve demonstrar certo nível de refinamento com ambas as flechas acertando tranquilamente o alvo.
Rokudan Explique o relacionamento entre kai e ikiai.

Explique o relacionamento entre shajutsu e taihai.
Explique shahin (graça, refinamento, dignidade) e shakaku (a qualidade ou o caráter do tiro).
Explique o raiki/shagi.
Explique maai (tempo, ritmo).
Explique o tempo certo do hitotsu mato sharei.
O que faz do kyudô especial, enquanto processo de aprendizagem?
O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram perceber superioridade no todo da técnica. Um bom tsumeai e nobiai são cruciais. Ambas as flechas devem ser disparadas tranquilamente e acertar o alvo.
Nanadan
Hachidan
Titulação Renshi Kyoshi Hanshi
1ª prova prática O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram identificar uma pessoa de forte caráter e com completa compreensão de te-no-uchi, hikiwake, zanshin e controle da respiração. Normalmente ambas as flechas devem ser disparadas tranquilamente e acertar o alvo O procedimento normal de atirar 2 flechas é seguido. Os juízes procuram identificar não apenas maestria na técnica, mas também uma pessoa de espírito muito forte.

O arqueiro deve agir e parecer tanto digno como forte em seu caráter.
Prova escrita

(perguntas possiveis)
Explique shibu no tsume ou gomu no tsume(as quatro ou cinco partes que esticam).

Explique o relacionamento entre kai e hanare.
Explique o relacionamento entre kokoro e shaho.
Qual o espírito do assistente (kaizoe no kokoro)?
Explique a nerai (mira).
Explique dosa e ikiai.
Explique o shaho-kun.
Explique o tempo adequado do mochi mato sharei.
Fale sobre shahin/shakaku.
Qual a atitude de um instrutor?
Prova oral Durante a entrevista, os juízes fazem diversas perguntas, a seu bel-prazer, similares àquelas dos exames práticos. Idem.
2ª prova prática Segue-se o procedimento cerimonial (mochi mato sharei). Os juízes procuram perceber uma compreensão completa do tiro e da técnica, assim como uma boa compreensão do formato cerimonial. Um “espírito forte” deve transparecer durante todo o procedimento de tiro. Normalmente shitsu falha. Pelo menos três das quatro flechas disparadas durantes as duas provas práticas devem acertar o alvo. Segue-se o procedimento cerimonial (mochi mato sharei).

Os critérios são como os supramencionados, mas mais rigorosos.
Normalmente, shitsu falha.
Pelo menos três das quatro flechas disparadas durantes as duas provas práticas devem acertar o alvo.

[1] Dan DeProspero (6º dan, renshi) é praticante de kyudô desde 1981, tendo vivido por vários anos no Japão. Ele é coautor de dois livros sobre kyudô. Esse artigo foi retirado do site: http://eclay.netwiz.net/translat/translat.htm.
[2] Segundo o website de DeProspero (http://www.kyudo.com/kyudo.html), Onuma representava a 15ª geração de mestres da antiga “escola” Heki Ryu Sekka-ha de kyudô e possuia 9º dan pela Federação Japonesa. Ele faleceu em 1990 aos 80 anos.

Publicado por

Elisa

kyudoca desde 2006

2 comentários sobre “Fazer ou não fazer a prova, eis a questão!”

  1. tenho algum conhecimento sobre arqueirismo,e me intereço muito por kiudo,tenho dans em algumas artes m. e pretendo fazer um dojo de kiudo,na medida do possivel,o que prescisaria,ou fazer uma associaçao.talvez , o que me sugerem?

    espero resposta. Charles.

  2. Muito bom texto Elisa. Obrigado por traduzi-lo. Ainda estou tão no início que muitos dos termos são desconhecidos, mas o caminho é esse mesmo. Vamos experimentar um pouco mais desses ensinamentos durante o Seminário Brasileiro de Kyudo!

Deixe o seu comentário na página Kyudo Kai Brasil