O’Brien Sensei: Kyoshi e Tradutor

As Artes Marciais japonesas com sua longa história possuem uma rica fortuna literária que reúne obras mais conhecidas, ou menos desconhecidas. Às vezes largamente traduzidas e pobres do ponto de vista editorial e crítico, são frequentes obras não completas e traduções via línguas latinas ou germânicas. Os títulos são muitos e vão desde obras antigas de contextos editoriais e autorais peculiares, como o Livro dos Cinco Anéis (五輪の書 Go Rin no Shô) e o controverso 葉隠聞書 Hagakure Kikigaki, até textos mais recentes como as contribuições do romancista e iaidoka Yukio Mishima (三島 由紀夫, 1925 – 1970).

Mesmo especificamente no Kyudô os textos são muitos, como 弓の心 Yumi no Kokoro de Inagaki Genshiro Sensei (稲垣源四郎先生, 1911 – 1995) e mesmo o 射法訓 Shaho Kun e o 礼記射儀  Raiki Shagi que abrem o Kyudo Manual são registros da proximidade histórica do 武道 Budo ao texto escrito. [1]

Entre tantos textos, é difícil a interpretação, seja pelo acesso a traduções ou pelo duvidoso exercício da contextualização.  O Kyudo Manual permanece como a publicação mais importante e básica para a aprendizagem e o treinamento de nossa disciplina. A importância de seu estabelecimento pela ANKF e a aparição da primeira edição em 1953 foram incontestáveis para assegurar a longevidade e a expansão do Kyudô. E para o público estrangeiro a tradução para o inglês supre um enorme vazio. Este texto pretende divulgar quem foi o seu tradutor.

O’Brien Sensei Kyoshi Hachidan [2]

Liam O’Brien Sensei (1946-2015) foi membro fundador da EKF (European Kyudo Federation) como presidente da UKKA (United Kingdom Kyudo Association) e foi shidosha da LKS (London Kyudo Society).

Iniciou seu treinamento de Kyudô no Japão na cidade de Kamakura, sob a tutelagem de Takeda Yutaka Hanshi em janeiro de 1972, então aos 26. Na primavera deste ano alcançou sua primeira graduação, e antes de voltar para Londres em 1974 já possuia yondan. Tornou-se godan em 1983, nove anos depois, com 37, em um seminário em Londres organizado pela EKF.

Em 1984 O’Brien Sensei retorna ao Japão, desta vez mora em Kobe e estuda Kyudô com Takeuchi Osamu Hanshi, no Ashiya Dojo, onde por nove anos treinará todas as tardes e finais de semana. Um de seus sempai nesse dojo é o hoje consagrado Hayashi Fumio Hanshi.

Ray Dolphin, hoje presidente da Associação de Kyudô do Reino Unido e outrora amigo e companheiro de O’Brien Sensei, a respeito dos seus anos em Kobe, lembra que ele frequentemente dizia:

“No Japão se aprende ficando embaraçado, cometendo erros e recebendo correções. (…) Quando Takeuchi sensei pediu a uma aluna para assisti-lo durante um Yawatashi, foi dado a uma mulher a chance de ser Daini Kaizoe, mas ela disse que não sabia e que não se sentia preparada. Ele nunca mais lhe pediu. (…) Quando um Sempai repreende um Kohai, nunca deve ser pessoal e sempre pelo benefício do aspirante.” [3]

Na experiência de um dojo genuíno, visitantes estrangeiros tendem a ser recebidos como convidados, e é muito comum que se tolere alguma ignorância à cultura japonesa. Não era o que acontecia com O’Brien Sensei, que em 1984 passa a Renshi, em 1986 para Rokudan e, em 1992, assim que retorna ao Reino Unido, passa a Kyoshi.

Com seu retorno do Japão, O’Brien abre a sua casa para praticantes de graduação alta se prepararem para os seminários seguintes, e inicia em Heston uma prática de domingo que culminará na Sociedade de Kyudô de Londres. Anzawa Sensei neste momento atribui o nome de Shatokurin ao dojo em que O’Brien treina na capital do Reino Unido, significando “lugar da virtude do disparo”.

“Sem a relação Sempai-Kohai não há treino de Kyudô”

Nestes anos, no pós-treino, O’Brien Sensei e sua esposa frequentemente convidavam os seu alunos mais envolvidos para uma refeição da tarde. Nestes encontros informais eles conversavam  sobre Kyudô e a sua experiência no Japão.  A mesma situação íntima e informal que O’Brien teve com Takeuchi Sensei, que gostava muito de café preto e passava horas depois do treino com seus alunos em uma cafeteria tomando café e fumando.

Para O’Brien Sensei, no Kyudô, a relação aluno e professor é primordial. Apesar de ensinar sem descriminação, ele demandava uma relação apropriada e séria com seus alunos. Pela memória de Ray Dolphin, O’Brien dizia:

“Sem a relação Sempai-Kohai não há treino de Kyudô. Um grupo de pessoas praticando juntas não constitui um dojo. (…) No começo de toda prática, deve-se sempre fazer o Aisatsu (saudação) apropriado, primeiro ao dojo, depois ao seu professor e então aos outros membros do dojo.” [4]

Para ele o Kyudô era um meio de cultivação moral, Shyuyodo, assim o que é importa é como você se aplica ao treino e não a sua efetividade no tiro. Pela lembrança de Dolphin, O’Brien Sensei obviamente ensinou a técnica, mas sobretudo ele ensinou o Reigi, respeito pelas pessoas que treinam juntas, respeito ao equipamento e à prática ela própria.

Há uma percepção de treino muito madura prevista no Kyudo Manual, sob o título Ethics of Kyudo (Moral code and Etiquette – Michi to Rei), no qual se discute os “dois aspectos do Kyudô”. O aspecto esportivo, técnico e competitivo e “as partes mais profundas da prática”, que envolvem os ideais Shin, Zen, Bi:

“Nada mais desagradável no Kyudô que o disparo baseado no apego ao ato de acertar. Em nossas vidas diárias, nós também experimentamos esse tipo de atitude, mas a realidade deste desejo é mais evidente no disparo, por isso em nossa prática a importância da verdadeira atitude sobre o desejo é encontrada e nossas vidas podem ser experienciadas mais profundamente. Neste contexto, expressões como “Atirar é vida” (Sha Soku Jinsei), “Atirar é Viver” (Sha Soku Seikatsu) ganham sentido.” [5]

O Legado De O’Brien Sensei

Em 1992 O’Brien concluiu a tradução do primeiro volume do Kyudo Kyohon para o inglês, e dizem que apenas aqueles que treinaram antes deste ano podem realmente apreciar o valor deste livro.

Dolphin lembra que para O’Brien não há nada pior do que ensinar o seu próprio entendimento do Kyudô, pois deve-se ensinar o que se foi recebido de alguém de nível Hanshi ou seguir o Manual. Nesse sentido, o legado de O’Brien assegura que o pior não aconteça, mas não foi apenas esse seu legado.

Em 1910, o Kew Jardim Botânico Real de Londres recebeu uma replica de um jardim japonês Chokushi-mon que por anos ficou sem manutenção. Mas em 2006 com a ajuda do Embaixador Japonês, reformas foram feitas e e O’Brein Sensei foi convidado para fazer um Yawatashi na ocasião de sua reinauguração onde bençãos xintoístas também foram dadas.

O’Brien também pôde se tornar amigo íntimo de um japonês artesão de yumi, Higosaburo Sensei que impressionado com a colaboração de Liam ao Kyudô, presenteou-o com um Mangi Yumi (o modelo mais especial feito por Higosaburo, que é colado com um adesivo natural chamado Nibe, e sempre feitos durante a noite, para que o artesão não seja perturbado e possa se concentrar inteiramente nestas obras-primas).

Yumis de bambu são sempre feitos aos pares e sabendo disso, logo depois de chegar ao seu hotel depois da visita em que fora presenteado, O’Brien decidiu voltar a Higosaburo para fazer uma oferta de compra ao yumi que faz par com aquele que ele havia acabado de ganhar. No caminho, encontrou Higosaburo com o yumi em questão em mãos, indo em direção ao hotel de O’Brien, para lhe dar este também, pois este sem seu par parecia solitário… Em 2003, Higosaburo visitou a Sociedade de Kyudô de Londres e pôde ensiná-los como cuidar de seus yumis.

Nos seminários da EKF O’Brien Sensei sempre atuou como tradutor e intérprete dos ensinamentos transmitidos pelos professores de nível Hanshi, o que requer profundo conhecimento em terminologia técnica.

Também a sua experiência com Kyudô old school no Dojo Ashiya sob a tutela de Takeuchi Sensei, foi ímpar, pois antes de passar para nanadan em 1997 foi convidado por Kamogawa Sensei para participar do seminário de Kyoshi da ANKF. Nesta ocasião tornou-se amigo de Ishii Sensei e Miyauchi Sensei que  hoje são Hanshi.

Neste período a Princesa Imperial Takamado visitou o seu dojo em Londres e foi acompanhada do presidente da ANKF Suzuki Sensei. Uma grande honra ao Kyudô estrangeiro.

A ANKF lhe concedeu postumamente o hachidan  e um certificado foi dado a sua filha em um seminário Shogo em outubro de 2015. Um evento comemorativo foi feito em Lilleshall e neste Tsuito Shakai mais de 70 pessoas de toda a Europa vieram para disparar um par de flechas em sua memória.

O’Brien Sensei protagoniza um documentário filmado pela NHK World sobre Kyudô; e há um vídeo em sua memória compartilhado na rede.

[1] MUSASHI, M. O Livro Dos Cinco Anéis – Gorin No Sho. São Paulo: Conrad. 2010. 148 p.
TSUNEMOTO, Y. Hagakure. São Paulo: Hunter Book. 2014. 80 p.
GENSHIRO, I. Yumi no Kokoro – The Spirit of Kyudo – Lo Spirito del Kyudo. Milano: Luni Editrice. 2014. Trilíngue. 128 p.

[2]As informações contídas neste texto foram todas encontradas em: ZIMMERMANN, G. European Kyudo Federation Newsletter. Publicação online, v. 1, n. 1, 2016. Disponível aqui.

[3] DOLPHIN, R. The Legacy of Liam O’Brien, Kyoshi Hachidan. In: ZIMMERMANN, G. (Org.) European Kyudo Federation Newsletter. Publicação online, v.1, n. 1, 2016. p. 2. Tradução nossa.

[4] DOLPHIN, R. IDEM p. 3. Tradução nossa.

[5] ANKF (Org.). The Two Aspects of Kyudo. In: Kyudo Manual, Tóquio: ANKF, 1995. p. 21. Tradução nossa.

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