Relatos do I Workshop de Kyudo de São Paulo

No último domingo, dia 5 de Agosto, Yanai-sensei e eu fomos à São Paulo atendendo a um convite de Luciano Nishikawa para ministrar um workshop de Kyudo em São Paulo.

A expectativa era grande, afinal seria na cidade onde mais pessoas mostraram interesse pela arte marcial mas que nunca havia tido um seminário padrão, conduzido de modo que os interessados pudessem experimentar a prática. E especialmente para mim, já que foi a primeira vez que viajei com o sensei para apoiá-lo num evento pois a Elisa-sempai passará uma longa temporada fora do Brasil 🙁

Escrevi este texto com entusiasmo (quase como um diário) e agora que terminei vejo que ficou comprido, mas mesmo assim não quis diminuir o conteúdo pois fui espontâneo e deixei muitos conselhos e observações afim de melhorar ainda mais os próximos encontros de Kyudo em São Paulo ou em outra cidade.

Continuem lendo clicando abaixo e vejam mais fotos do evento. O que posso adiantar é que o Workshop foi incrível!

Chegamos na Terra da Garoa no sábado com um sol incrível e céu límpido. Fomos muito bem recebidos no aeroporto de Guarulhos por Luciano e Philipe Dequincey, que havia entrado em contato conosco recentemente. Fomos conduzidos até o nosso hotel e aproveitamos o fim de tarde para conversarmos sobre o objetivo do Workshop ser primordialmente o de fomentar um grupo de Kyudo permanente em São Paulo.
Descrevemos um pouco a história de formação dos demais grupos de Kyudo pelo Brasil e como pretendemos crescer ao ponto de formalizar a Federação Nacional, e assim criar a BKK (Brasil Kyudo Kai) no papel. Explicamos como poderemos apoiar com logística, equipamentos, seminários e como poderão ser elaborados futuros encontros. Fechamos conversando um pouco sobre a agenda de atividades de domingo para o Workshop.
Foi uma reunião muito objetiva numa tradicional loja de sucos da capital paulista que não deixou nada a desejar às cariocas, 🙂

Philipe é francês e trabalha no Brasil há apenas 1 anos e nos surpreendeu com o seu domínio em português sem nunca ter estudado antes de vir para cá. Seu currículo é incrível pois já morou no Japão por 5 anos e lá teve o seu primeiro contato com o Kyudo. Voltando à França iniciou seus treinos regulares de Kyudo e evoluiu até o 2º Dan participando de diversos seminários pela Europa.

Voltando ao Hotel nos acomodamos e ainda fomos agraciados pelo Luciano com um jantar num típico restaurante de Lamen da Liberdade. Aproveitamos o fim de noite para conhecer o bairro e o Bunkyo que sediou o Workshop.

No dia seguinte (bem cedo), Philipe nos buscou no Hotel. Sabíamos que teríamos muito trabalho antes do Workshop pois ainda precisaríamos conhecer o Ginásio (na noite anterior já estava tudo fechado) e executar diversas medições, além de fixar as sinalizações de segurança. Levamos quase uma hora para nos decidirmos a usar a quadra em diagonal (ótima dica do Ventura), fazer as marcações no piso, fixar mato e proteções e colocar as lonas nas linhas de Sha-i e Honza.
Esse trabalho inicial muito útil pois contamos com colaboração dos alunos que chegaram mais cedo e que puderam entender um pouco mais de Kyudo com isso. Nós também ajudamos no Setup do Dojo em Minnesota no ano passado e aprendemos muito sobre as partes de um campo, medições corretas e materiais ideais. No Brasil ainda não temos um dojo exclusivo para prática de Kyudo e saber adaptar o ambiente da melhor maneira possível (de modo que o Kyudoka não tenham empecilhos) é uma arte. 🙂

Enquanto isso, com dedicação, o Phillipe dava os últimos arremates nos 2 Makiwaras. Incrível, ele trouxe um Makiwara de ótima qualidade da Europa para o Brasil
– Aos artesãos de plantão: vale olhar para esta peça com atenção!

Com tudo pronto, sensei se preparou para o disparo de Yawatashi para abrir o seminário enquanto eu passava as últimas informações e a agenda do dia para os alunos e solicitava a colaboração e atenção de todos durante todo Workshop. No Kyudo, a participação de todos é indispensável: seja arrumando o dojo, varrendo o chão ou auxiliando um sempai ou sensei. Isso a turma paulista tem de sobra, ficamos orgulhosos!

Após as formalidades de início, Rei/Yu e as palavras de abertura, verifiquei com a apresentação individual que ao menos um quarto dos alunos não era da capital paulista. Não me lembro agora de todos os nomes, mas lá estavam o Rene do Paraná e o Rodrigo de Rondônia – fantástico, São Paulo é realmente o Hub do Brasil.

Na parte da manhã nos concentramos no Hassetsu, no máximo trabalhando com o gomu-yumi e com flechas para melhorar a forma. Desde o começo Phillipe se mostrou um ótimo sempai auxiliando diligentemente 1/3 dos alunos.

Às 11:45 liberamos a turma para a pausa de almoço. A Liberdade é um bairro generoso no quesito restaurantes orientais e almoçamos num bom e barato ao lado do Bunkyo que, curiosamente, era onde quase todos os alunos estavam.
Pena que não tínhamos uma reserva prévia para abrigar todos na mesma mesa – fica aí a dica para o próximo evento! 🙂

A volta de barriga cheia sempre é mais complicada, costumamos ficar mais cansados e em outro estado de espírito: querendo digerir a comida e as novas ideias discutidas com os colegas.
Assim, começamos com uma rápida demonstração de Risha Mato Mae com 3 arqueiros: Yanai-sensei, Phillipe e eu. Continuamos tarde a dentro com explicações sobre equipamentos (seu manuseio, manutenção, etc), o Yumi, o Tsuru, o Ya e o Gake, dividindo a turma entre nós 3 – Essa foi uma ótima ideia e pudemos dar mais atenção assim.

Depois, juntamos outra vez todos os alunos num único grupo e começamos a repetição de andar em Toriyumi e dos outros movimentos básicos (sentar, levantar, Rei, Yu, virar em pé e sentado…), aí começamos a mostrar cansaço e minha voz já estava a falhar de tanto cantar o timming dos passos para os alunos.

Yanai-sensei fez questão que, mesmo no primeiro workshop, cada aluno tivesse a experiência de manipular o arco com a flecha ao menos uma vez. Mesmo com mais praticantes do que equipamento, organizamos grupos de alunos pelo seu tamanho. Precisamos ficar atentos a isso antes e já separar os alunos que provavelmente usarão a mesma luva e arco (devido a estatura) desde o começo do seminário para não confundir na hora H.
Mesmo assim, cada um pode treinar Subeki algumas vezes, se revesando com os demais colegas, e disparar uma flecha contra o makiwara com a assistência apreensiva de Yanai-sensei e Phillipe.

É muito comum num seminário internacional (devido aos poucos mestres japoneses em relação ao número de participantes) que os alunos fiquem muito tempo parados. Philipe também mencionou isso, e tentamos fazer o possível para que ninguém ficasse esperando a sua vez de usar o equipamento e criamos uma atividade paralela: O Gonintachi (que tanto assombra quem está se preparando para a prova agora, em Davis) mas com gomu-yumis.

O tempo foi mais rigoroso do que planejamos em nossa agenda e nem acabará o Workshop eu já estava arrumando as malas rapidamente para não perder o voo de volta. Conseguimos fazer o encerramento formal, mas não o disparo de fechamento das atividades. Yanai-sensei conseguiu deixar algum equipamento para o grupo paulista começar os seus encontros e ainda conseguiu registrar o inventário para a Elisa-sempai não ficar brava. 🙂

Deu tudo certo no final e chegamos a tempo em Guarulhos com uma carona de Dyrson – aluno do Rio mas que tem família em São Paulo.
Foi bom estar apressado desta vez, tivemos uma burocracia para despachar os nossos arcos mas tanto eu quanto Yanai-sensei gostaríamos de comemorar com todos e bater papo após os trabalhos. Fica aí mais uma dica para o próximo: Marcar jantar de encerramento!

Yanai-sensei saiu com uma ótima impressão de todos, achamos que este será um grupo instantâneo pois os paulistas tem a seguinte conjunção “astrológica” para se tornar um sucesso instantâneo:

  1. Alunos motivados
  2. Liderança e iniciativa
  3. Pessoas graduadas
  4. Proximidade dos senseis do Brasil
  5. Comida boa! 🙂

Como sou da área de Tecnologia e fã de métodos ágeis, não canso de utilizar o que aprendemos em nossas reuniões e projetos nas empreitadas de Kyudo, também. Ao final fica aí o que foi Bom, Ruim e o que pode Melhorar:

Bom:

  • Turma esforçada;
  • Contar com o apoio de um arqueiro graduado;
  • Equipamento para montar o dojo já pronto, só faltando colocar no lugar;
  • Hotel para o sensei;
  • Escolha de fazer o sensei chegar um dia antes;
  • Escolha do bairro;
  • Dividir a turma de alunos em diversas atividades para dar atenção mais exclusiva;
  • Grandes mesas para apoiar nosso itens.

Ruim:

  • Horário escolhido para o voo de volta do sensei;
  • Faltou água no dojo;
  • Não pensamos num ícone para o Kamiza;
  • Não teve festa no final! 🙂

O que fazer para ficar ainda melhor:

  • Garrafas de água disponível (e visíveis) para todos no dojo;
  • Saída do sensei um dia depois do workshop;
  • Escolher bandeira ou um Ikebana (como em Brasília), símbolos laicos, para ser o Kamiza;
  • Reservar um restaurante com lugares suficientes para todos os alunos e instrutores;
  • Separar previamente os alunos por estatura para compartilharem o mesmo equipamento;
  • Uniformizar os alunos. Orientar o uso de calça em tons escuros e camisa e meias brancas nos eventos – caso não tenham Hakama, tabi e Gi;
  • Distribuir blocos ou caderninhos para todos tomarem suas notas;
  • Reservar algum lugar para fazermos uma social após o treino (sei, estou ficando repetitivo.

É isso aí turma, sem a Elisa-sempai vai ser duro manter este site atualizado por um ano. Peço a ajuda de alguém de São Paulo na edição das matérias aqui.

E não esmoreçam! Aproveitem esta energia boa e continuem os encontros. Como o sensei falou, vocês não precisam ter o lugar perfeito agora, mas sim um espaço onde se organizem como grupo e estreitarem laços.

Saudade de todos

As fotos deste post foram todas tiradas pelo aluno Guilherme Sumita:
Mais fotos no Picasa dele.

Publicado por

Igor Prata

Analista de Segurança e Kyudoca desde 2008

4 comentários sobre “Relatos do I Workshop de Kyudo de São Paulo”

  1. Muito obrigado a toda a equipe do Rio pelo suporte, o material o a pedagogia do Workshop. Espero que vamos iniciar um grupo muito forte em São Paulo !

  2. olá a todos… fiquei feliz por poder participar deste workshop em São Paulo… foi um dia de grande aprendizado… mesmo longe aqui em Rondônia sempre comento desta experiência maravilhosa de poder conhecer uma pouquinho desta Arte sem igual… espero ter outra oportunidade para poder participar de outro worksohop, tanto para conhecer mais ainda da Arte com para rever os amigos que fiz… um grande abraços ao Yanai-Sensei o Igor o Philippe e os demais amigos de sampa… abraços a todos…

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