Sobre graus, títulos e exames

Baseado na dúvida de um ilustríssimo leitor, resolvi explicar algumas coisas conforme a chamada deste post.

A Federação Japonesa de Kyudô (ANFK) dá aos praticantes dessa arte 5 níveis (kyus) e 10 graus (dans) diferentes, de acordo com o seu conhecimento, e da seguinte forma:
níveis/kyu: vão do 5º (mais baixo) ao 1º (mais alto).
graus/dan: vão do 1º (mais baixo) ao 10º (mais alto).

Todos os níveis e graus (até o 8º) são obtidos através de provas aplicadas pela própria Federação, em ocasiões específicas para isso. Além disso, a banca avaliadora é composta por seis jurados (kyudokas de altíssimo nível, naturalmente).

Eis alguns exemplos:

Para obter o 1º dan (shodan), é necessário que a forma do tiro e os movimentos formais (entrada e saída) estejam todos de acordo com nível esperado de um iniciante. Não deve haver muita confusão não hora de encaixar a flecha (pode não parecer, mas isso é difícil!!!).

Para o 2º dan, tanto a forma do tiro quanto dos movimentos devem estar bem arranjadas, demonstrando evidência de “energia espiritual” na técnica. É preciso que haja menos incerteza na hora de encaixar a flecha.

Para o 5º dan, a forma e técnica de tiro e o método de movimentação devem estar de acordo com este grau (ou seja, alto), com indicações de refinamento no tiro – demostrando um progresso em comparação aos graus anteriores.

Essas explicações foram retiradas o próprio livro da ANKF e, como se pode notar, são bem “subjetivas”… isso explica também, por exemplo, porque não existe prova além do 8º dan: só é possível ganhar o 9º e o 10º através de indicação do colegiado de kyudokas — “a verdade do kyudo deve ser transparente” é a explicação do requisito para aquele grau.

Além disso, há ainda provas específicas em separado para a obtenção dos títulos:
– para o de instrutor (renshi), podem se candidatar aqueles com grau acima de 5º dan. É preciso ter um caráter firme e a habilidade de instruir em kyudo, além de evidenciar técnicas avançadas;
– para o de professor (kyoshi), pode se candidatar quem tiver o título de renshi. Além de caráter, habilidade técnica e bom senso, é essencial também serviços meritórios na área e boa educação e cultura, pré-requisitos para a liderança no kyudo;
– para o de mestre (hanshi), pode se candidatar quem tiver o título de kyoshi. Esse é reservado para aqueles com o grau último de conduta, dignidade e perfeição técnica, assim como grande discernimento.

Como se pôde notar, a palavra “sensei” (pelo menos em kyudo) não é título nem tem qualquer relação com o grau (dan) de uma pessoa. A princípio, você poderia chamar até a mim de sensei (que nem tenho shodan), pelo simples fato de eu saber mais, ter mais anos de prática e/ou ser mais velha que você. Todos esses motivos me levam a chamar o Fernando Melo e o Yanai de sensei, por exemplo, quando nenhum dos dois são renshi, kyoshi ou hanshi.

Uma observação: existe um tempo mínimo entre uma prova e outra (que varia de acordo com o grau). Entre shodan e 2º dan (acho) é de seis meses, mas para graus mais altos é de anos (inclusive em caso de reprovação). O Okita-sensei, por exemplo, conta que levou 20 anos para chegar a 7º dan e 24 para passar do 7º ao 8º dan!!!

Hoje em dia, é possível fazer prova de dan apenas nos EUA (até 6º dan), Europa e no próprio Japão. E como são necessários seis jurados credenciados, percebe-se que seria necessário um grande número de kyudokas aqui para mudar isso.

Outra observação: não se usa nenhuma diferenciação na vestimenta (como as faixas coloridas de caratê) entre os dans ou títulos em kyudo.

Espero ter sanado algumas dúvidas!

Publicado por

Elisa

kyudoca desde 2006

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